Demorou milênios, mas parece que finalmente aquela que talvez seja a primeira das ciências humanas começa a ser percebida como tal. Em tempos de sustentabilidade, comida deixou de ser assunto de dona-de-casa e virou capa de revistas como a norte-americana The Nation, sempre voltada à política, e a inglesa The Economist, que normalmente se preocupa com temas econômicos, políticos ou sociais.
Há algum tempo, a comida já vinha sendo estudada como fator determinante de relações de sociabilidade. Ela interfere diretamente na maneira como as pessoas se relacionam e também em sua fonte de prazer.
Há muitos anos o interesse pela gastronomia vem crescendo. Não só no Brasil, é um fenômeno mundial. Na minha opinião, a gastronomia é o maior prisma das ciências humanas. A filosofia, a sociologia e todas as demais ciências trilham a alimentação. Primeiro porque é vital. E também porque o homem conseguiu transformá-la em uma fonte de prazer, disse o chef Alex Atala, em uma entrevista a mim feita há cerca de seis meses.
Neste ano, todo mundo descobriu que comida está relacionada com política, e as pessoas podem fazer algo a respeito, defende Marion Nestlé, professora do Departamento de Nutrição, Estudos de Comida e Saúde Pública da New York University, em uma reportagem no The New York Times, em dezembro do ano passado.
Boa parte disso envolve a questão dos alimentos orgânicos e num sentido bem amplo: produção, cuidado com a terra e o meio-ambiente, respeito a leis trabalhistas, consumo e preferência por produtores locais.
A revista The Nation especial sobre comida (de setembro de 2006) trouxe vários textos de chefs, sociólogos, biólogos, agricultores totalmente a favor da produção/consumo de orgânicos. Ainda alertava para a necessidade de consumir orgânicos de produtores locais, depois principalmente de checar as condições de trabalho adotadas em suas plantações.
Jean Anthèlme Brillat Savarin estava certo em 1825 quando escreveu em sua obra-prima A Fisiologia do Gosto que o destino das nações depende da maneira como elas são alimentadas. Se você pensa que essa frase exagera a importância da comida, considere que hoje 4 bilhões de pessoas no mundo dependem da agricultura para sobreviver. Comida é destino; toda decisão que tomamos sobre comida tem repercussões pessoais e globais. Mas agora é amplamente reconhecido que a comida que ingerimos pode nos deixar doente, mas ainda não conhecemos todas as conseqüências _ ambientais, políticas, culturais, sociais e éticas _ da nossa dieta nacional, escreveu a chef norte-americana Alice Waters, dona do restaurante Chez Panisse, no texto de abertura da revista.
A partir do texto de Waters, vários outros discutiram a produção de alimentos orgânicos: do programa Fome Zero do governo Lula até o fato de se a seção de comida orgânica do Wal-Mart vai ou não exterminar produtores locais, passando até pela polêmica de que nem todos os produtores locais são tão bacanas assim, porque alguns têm mão-de-obra quase escrava.
Em certo ponto, Waters lembra que o filme Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, inconvenientemente não trata da questão da alimentação orgânica.
Talvez por que essa discussão não seja tão simples assim. Na contramão da reportagem da The Nation, a The Economist discute a viabilidade de ter extensas plantações orgânicas:
A idéia de que shopping é a nova política é certamente sedutora. Eleições ocorrem com pouca freqüência, mas você deve fazer compras várias vezes por mês, o que lhe dá muitas oportunidades de expressar suas opiniões. Se você está preocupado com o meio-ambiente, você pode comprar comida orgânica; se quiser ajudar fazendeiros pobres, você pode comprar produtos em feiras livres; ou pode expressar seu ódio pelas empresas multinacionais demoníacas e a globalização comprando só de produtores locais. E o melhor de tudo é que comprar, ao contrário de votar, é divertido; então você pode fazer o bem e se divertir ao mesmo tempo.
Infelizmente, não é tão fácil. Há boas razões para duvidar dos três mais populares pilares da comida ética: a orgânica, a de pequenos fazendeiros vendidas em feiras livres e a de produtores locais. As pessoas que querem tornar o mundo melhor não podem fazer isso apenas mudando seus hábitos: transformar o planeta requer duras disciplinas, como políticas, diz a revista.
Depois, argumenta que tornar a produção alimentícia totalmente orgânica requer tanto tempo quanto muito mais terra, o que geraria um desmatamento sem proporções, que, portanto, teria implicações no aquecimento global e outros desastres ambientais. Além de que não há provas de que escolher produtos orgânicos realmente proteja a sua saúde.
Comida é um fator central nos debates sobre meio-ambiente, desenvolvimento, comércio e globalização, mas o potencial para escolhas alimentares que vão mudar o mundo não deve ser superestimado, conclui.
Uma visão extremada talvez.... Ou pelo menos uma discussão que deve levar tempo. Defensores da produção orgânica também argumentam que esse desmatamento é irreal e que a preferência pelo consumo de produtos de fazendeiros locais também diminui a emissão de poluentes por conta de queima de combustível no transporte de grandes produtores para o mundo inteiro.
E já que esse texto será publicado em um blog de comida, acho importante ressaltar que orgânicos também têm um diferencial importante: no sabor e no prazer de comer. Então vou terminar com a frase que Alice Waters encerra seu texto:
Pedimos a colaboradores de um fórum para falarem apenas uma coisa que poderia ser feita para consertar o sistema de alimentação. O que eles propuseram são soluções que valorizam o que eu penso como valores da slow food, que são opostos aos propagados pelo marketing da fast food. Para mim, esses valores são a alimentação em família, que nos ensina, entre outras coisas, que os prazeres da mesa são tão sociais quanto particularmente bons. Na mesa, nós aprendemos moderação, diálogo, tolerância, generosidade e convívio; isso são valores cívicos. Os prazeres da mesa também pedem responsabilidades _de um para com os outros, com os animais que comemos, com a terra, com as pessoas que trabalham nela. O que acontece é que a comida é saudável em todos os modos que nos são mais caros, em tempo, em dinheiro, que nós pagamos agora. Mas quando aprendemos qual o real valor da comida (e aí reaprendemos a real recompensa de comer), iremos ter uma fundação não apenas de um sistema de alimentação mais saudável, mas de um mais saudável século 21.